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(Artigo originalmente publicado no Unplanned.)


Imerso em Desplanejamento

(*) Por Carlos Henrique Vilela

Estou há 4 anos fora de agência, lidando com um contexto mais próximo da tecnologia do que da propaganda. A base do meu trabalho, no entanto, continua sendo a estratégia, os insights e as ideias. Por outro lado, estou em um mercado frenético e realmente sedento por inovação, competindo com startups cheias de ousadia e sem nada a perder. Tudo isso me faz sentir um pouco distante do planejamento como conheci e pratiquei nas agências por onde passei. E foi aí que o Unplanned antigo deixou de fazer sentido pra mim. Desde então, junto ao André Foresti, também em processo de reinvenção, resolvemos repensar e dar um novo significado ao projeto. Nasceu ai o conceito de ‘desplane-se’: um novo Unplanned, uma nova bandeira, um caminho relevante, uma forma diferente de levar a vida. Foram meses de trabalho, muita conversa, reuniões, mão na massa, propostas, mudanças, ideias, imprevistos, mais mudanças, e finalmente chegamos à reta final.

Antes de continuar, vamos viajar no tempo, ao dia 20 de fevereiro de 2016 – 9 dias antes do lançamento do Novo Unplanned. Expectativas a mil. E eu, à beira de realizar um outro sonho.

Há 4 anos, me desplanejei por completo. Mudei pra Santa Rita do Sapucaí, um polo tecnológico conhecido globalmente, que respira e inspira inovação. Uma cidadezinha pequenininha, bem mineira, mas muito singular. Desde então, tenho trabalhado forte com parceiros e amigos para que o mundo todo tenha contato com este lugar incrível, um dos mais criativos onde já estive, e para que as principais cabeças criativas do mundo passem por aqui em eventos, projetos e visitas – e isso desencadeie uma troca ampla de conhecimento. O legal é que, de forma colaborativa, temos conseguido ampliar essa realidade: de um TEDx com pensadores globais a um projeto de cidade criativa sem precedentes, de projetos com um dos caras mais criativos do mundo pela Fast Company, a uma visita surpresa que tive na semana passada do sócio de uma das principais agências de design do mundo.

O ponto aqui, no entanto, é que desde que estive no SxSW, em Austin, a gente vem trabalhando para aproveitar a possibilidade de imersão, de surpresas inusitadas e de aproveitamento do tempo que a cidade oferece. Algo impossível em grandes centros. Nasceu, então, o Hack Town, em parceria com o Marcos David (fundador de uma startup incrível chamada Dágora), o João Rubens Costa (que trabalha com inovação no Inatel) e o Ralph Peticov (ex-Mandalah, agora em carreira solo). Foi incrível, mas paro por aqui, por ser suspeito se rasgar elogios, é claro. Mas foi só depois do evento que me dei conta de que a nova proposta do Unplanned é mais relevante do que eu imaginava. Desplanejar é uma necessidade da humanidade. É algo que serve para marcas, mas que também é essencial para as nossas próprias vidas. De tudo que rolou por lá, deu pra sacar que o desplanejamento vem sendo a chave para transformações reais, cada uma à sua maneira. Se tivesse ido a um evento tradicional de business, desses fantasiados de terno e gravata, talvez minha impressão tivesse sido contrária, não acham?

Bem, chega de rodeios. O que quero mostrar por aqui são alguns destaques do que pude conferir no Hack Town (como estava na organização, vi pouco mas conversei muito e com muita gente). Vou falar de como pude perceber o ‘desplanejamento’ tão presente na prática.

  • Um debate sobre a Educação do Futuro, que uniu gente de tecnologia, filosofia e educação, deixou no ar uma conclusão: a solução não é mais um plano, como talvez teria sido no passado. Parafraseando outra apalestra que vi recentemente, “se Napoleão Bonaparte viajasse no tempo e aparecesse no mundo atual, só se sentiria familiar dentro de uma escola”. Afinal, nada mudou nesse contexto. O que existe são experiências, são tentativas – muitas delas ousadas e colaborativas. A tendência é sairmos de um modelo único, para uma realidade de vários modelos. Ou seja, quem está preso no modelo atual – do MEC às próprias instituições -, é melhor se desplanejar logo. Ou será tarde demais.
  • Na palestra do pessoal do CESAR de Recife, eles apresentaram um histórico de como as cidades são planejadas para uma coisa e acabam se desconstruindo ou se transformando em outra. O Nilo Faber destacou como não dá mais pra pensar num modelo cartesiano de evolução para o mercado automobilístico e para a questão da mobilidade urbana. Para ilustrar, apresentou o projeto Container, em que, junto à Fiat e algumas instituições de ensino, começaram a desenvolver projetos colaborativos com empresas de outros segmentos para criar uma experiência mais completa para o consumidor ao evitar interrupções na sua jornada diária. E isso trouxe inovação atrás de inovação. No mesmo assunto, o engenheiro Luiz Fernando Pinho, da Leucotron, apresentou uma projeção do que podem ser alguns dos impactos dos carros autônomos nas nossas vidas e nos negócios – contexto em que, se continuarmos em busca de um plano perfeito, vai ter sempre uma startup ousada, flexível e colaborativa o suficiente para fazer diferente e enterrar um modelo mainstream.
  • Trabalhando, perdi tanto o talk do Romulo Justa, um dos sócios da Mandalah, como o do Renato Stefani, do Hack Life. Mas acabei caindo em um bate papo na rua com 3 desconhecidos, enquanto comia um pastel de milho tradicional em um food truck da cidade. Eles falavam justamente de como em ambos os casos, a capacidade de adaptação é mais importante do que a técnica simplesmente: mais entendimento, menos julgamento, mais abertura, menos convenções, mais experimentação, menos planos. Ou seja, isso vale tanto para hackear a própria vida, assunto do Renato. Ou para abrir um negócio em cidades globais “fora do eixo”, assunto do Rômulo, que mostrou o quanto isso explica, por exemplo, a dificuldade de profissionais altamente gabaritados, graduados em universidades como Harvard ou MIT de serem bem-sucedidos em polos fora do padrão.
  • O pessoal da startup Hakkuna apresentou como vem trabalhando para inserir os insetos – uma das principais fontes de proteína existentes e totalmente viáveis para o nosso futuro – na alimentação do brasileiro. Estão se relacionando com grandes empresas da área alimentícia para uutilizarsar os insetos como matéria prima para farinha, granola, barras de cereais, doces e até bebidas. E mostraram que no dia a dia, já ingerimos insetos o suficiente, sem conhecimento, para que isso seja adotado numa boa. Talks com este, assim como os pitches de startups que rolaram por lá, são legais por evidenciar possibilidades para a reinvenção dos mercados, assim como aconteceu com o Uber, Netflix, AirBnB e outros.
  • Em uma atividade sobre bandas de rock autoral, estiveram 4 perfis bem diferentes para debater: Um integrante da banda Arte Kerosene, que acabou de fechar contrato com uma grande gravadora nacional. Um integrante da banda Os Gringos, que vem rodando o pais em festivais e casas especializadas. O Guido Del’Duca, que começou como músico de rua para depois gravar. E uma banda regional talentosíssima, o Patronagens Band, que está criando um espetáculo musical, em parceria com um grupo de teatro e outro de dança para lançar seu primeiro álbum. Essa mistura e as colocações de cada um evidenciaram uma enorme variedade de alternativas pouco convencionais para um mercado em que se costumava ter apenas uma única forma única de dar certo. Chamou a atenção a necessidade de parcerias colaborativas, ousadia e muita imaginação. Afinal, não são mais as grandes gravadoras que constroem os hits, mas sim as pessoas, que tem o poder nas mãos.
  • Um dos principais especialistas no país em impressão 3D e novos processos industriais falou da quarta revolução industrial, caracterizada por sua natureza hiperconectada, em tempo real, customizada, à base de robôs, impressoras 3D, drones, inteligência artificial e outras tecnologias exponenciais. Me lembrou, inclusive, do que vi em 2014 no SxSW em um painel do MIT, se não me engano: Eles realizaram um teste em uma linha de produção feita de impressoras 3D, para fabricar formas de cupcake. No fim das contas, além de produzir com menos recursos e tempo do que uma linha tradicional, todas as mil forminhas tinham um formato diferente – mostrando que a personalização em massa já é real e viável.
  • O biólogo Luis Fernando Alberti usou a teoria da evolução para contestar a forma como se vem planejando o futuro de produtos tecnológicos, principalmente softwares, ao longo dos anos. Ele falou da necessidade de um processo mais orgânico, baseado em experiências e adaptações, ao invés de linear e cartesiano. Segundo ele, a forma planejada como agimos hoje é inadequada ao modo como o mundo funciona. Isso, aliás, me fez lembrar o que costuma dizer o antropólogo cognitivo Dr. Bob Deutsch, de que para inovar, é essencial deixarmos de querer saber como será o fim de algo, logo no começo. Para ele, devemos nos abrir para o novo, abraçar o acaso, desplanejar, experimentar, ajustar e ousar, o tempo todo.
  • Após a palestra do Emanuel Spyer, diretor de estratégia na Isobar, topei com um engenheiro e um planner conversando sobre como a publicidade vem se tornando uma ciência exata, ao passo que a engenharia começa a se preocupar não só com funções e com a lógica, mas com o acaso e com as emoções.
  • Mesmo nos outros papos regionais, fiquei impressionado com tudo o que ouvi. O publicitário Denny Bastos, que vem inovando em uma agencia de design do interior ao descolar dos modelos existentes nos grandes centros, deu um grande salto ao expandir para um novo negócio inusitado: um estúdio de tatuagem, aproveitando a capacidade de ilustração em alto nível seu e da sua equipe. Caio Pereira, pesquisador do ICC, mostrou oportunidades que poderão ser geradas a partir da Internet das Coisas – mudando totalmente o contexto das marcas, das cidades, das empresas, e das nossas vidas. O mesmo valeu para o pessoal que abordou o tema Smart Cities – uma revolução. Ambas as temáticas, no entanto, estão cheias de incertezas, o que torna quase impossível a construção de planos. A abordagem precisa ser outra.

Ao final, foram mais de 70 atividades, com cerca de 15 rolando simultaneamente, entre palestras, shows, exposições e workshops – além das escapadas que a imersão na cidade oferece. O próprio formato acaba forçando um desplanejamento, seja pela impossibilidade de ver tudo o que se deseja, quanto pelo impacto da surpresa em quem faz escolhas sem se prender a amarras. Além disso, sair do eixo em uma cidade tão legal pode ser muito inspirador – principalmente pra quem quer se desplanejar.

No fim das contas, e por acaso, me fez toda a diferença poder vivenciar o desplanejamento na prática neste início de ano. Uma imersão em um conceito tão relevante, logo às vésperas de retomar um projeto que tem muito significado pra gente e que carrega essa bandeira.


 

(*) Carlos Henrique Vilela é fundador do Unplanned e head of marketing and innovation na Leucotron.