O mito de Sísifo e os planejadores

Por Jurandir Craveiro (*)

Na mitologia grega, Sísifo foi o mais astuto dos mortais. Enganou a morte e enrolou os deuses, mais de uma vez. Porém, pego e condenado, recebeu uma pena terrível, que cumpre até hoje.

O castigo de Sísifo é carregar com as mãos uma rocha pesada até o cume de uma montanha. Lá, exausto, não tem forças para impedir que ela role ladeira abaixo, de volta ao ponto de partida, de onde Sísifo tem que recomeçar de novo, todo os dias e por toda a eternidade.

O esforço inútil, interminável de Sísifo foi capturado pelo artista gráfico e diretor Marcell Jankovics, em um filme indicado para o Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação em 1974. Nele, o artista retrata à traço a labuta de Sísifo, a rocha e a montanha, em uma sequência ininterrupta.

A história do ex-pastor que virou rei de Corinto inspirou Albert Camus a escrever uma das suas obras mais famosas, “O Mito de Sísifo” (1942), um ensaio sobre a gratuidade da vida e o conceito do “absurdo”, entre outras inquietações filosófico-existenciais.

Camus aponta Sísifo como o herói representativo desse absurdo que é o “divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário”. Inerentemente desprovida de propósito, a vida não teria qualquer significado.

Vem daí a expressão “trabalho de Sísifo”, que quer dizer trabalho árduo, repetitivo, despropositado e sem esperança de dar resultado. Trabalho que, além de não poder resultar em algo útil ou proveitoso, carece de qualquer possibilidade de desistência ou recusa.

Em sã consciência, não custa nada os planejadores abrirem os olhos nos dias de hoje para revisar as suas rotinas e desvendar o sentido das suas tarefas no cotidiano da agência.

A despeito do seu job description, repare quantas vezes, no seu trabalho, forçado pelos deuses, você:

  • Carrega pedras morro acima e, chegando ao cume, vê que despencam de volta ao ponto de partida?
  • Trabalha diariamente em verdadeiras pedreiras, mas raramente vê as pedras que você leva entrarem na obra final?
  • Cumpre tarefas rotineiras, repetitivas e desprovidas de propósito, por baixo de uma aparência legal?
  • Lamenta em casa o martírio do seu esforço e o desperdício do seu talento no dia-a-dia?

Se você titubeou diante de cada pergunta acima, já não se tratará mais de mero acidente ou abacaxi, naturais de toda profissão e todo trabalho.

Pode ser que o planejamento na sua agência seja isso mesmo, um pau mandado dos deuses da sala mor, sem maior influência nas decisões criativas.

Pode ser que o papel que se espera de você seja exatamente esse, ralar incessantemente dia e noite para fazer coisas que agradem o cliente, sem grande influência no produto final da agência.

Nesse caso, se fosse você, cairia fora.

Trabalhos de Sísifo no planejamento, a mando dos deuses da agência, não vão lhe trazer nada de gratificante a não ser o salário. E um monte de frustrações.

Mas, mesmo assim, se a grana compensar, fique, claro.

Para terminar, divirta-se um pouco: veja uma interpretação bem-humorada do mito de Sísifo. É a animação 3D de uma equipe de estudantes da Trumax Academy, exibido no dia Internacional da Filosofia, em 15 de novembro de 2012.


(*) Jurandir Craveiro é planejador de marca e comunicação. Foi fundador da agência NBS. É presidente do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental, vice-presidente do Grupo de Planejamento (GP) e autor do Blog do Jura.