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A internet está engolindo a internet

Por Beto Bina (*)

MUHAMMAD, taxista, teve uma vida difícil. Emigrou de Bangladesh à Nova Iorque e trabalhou duro para ter o que comer, constituir família e uma vida digna aos filhos. Recentemente, conseguiu seu Medallion (ou alvará) de taxista. Somando tudo o que gastou — ou deixou de ganhar dirigindo o taxi dos outros — pode-se dizer que tirou 1 milhão de dólares do bolso.

Quando pensou que a vida estava retribuindo e poderia ver seus filhos estudando em uma faculdade, surge o Uber. Hoje, taxistas em Nova Iorque estão com uma enorme dificuldade de organizarem-se para defender seus direitos ou retardar a mudança da selvagem internet que, influenciadores, acreditam ser uma questão de tempo.

FILHO DE MUHAMMAD, Ibrahim, é jornalista e sempre teve uma vida de provação, já que jornalistas não são bem pagos nem no primeiro mundo. Trabalhou duro como estagiário em grandes empresas mas logo sustentou-se através de um blog, que se tornou um vertical e depois um portal. Acessos cresceram, assim como os anunciantes e o faturamento.
Quando pensou que a vida enfim estava retribuindo o seu esforço, e poderia ver seu pai orgulhoso, a Apple lança a atualização do seu OS (sistema operacional) que permite o uso de AdBlocks. Hoje, Ibrahim se une à outros influenciadores para defender seus direitos e retardar a mudança da selvagem internet.

A Apple anunciou suas novas atualizações no Sistema Operacional e rolou um bafafá online. Algumas pessoas defendiam AdBlocks como uma evolução natural, similar ao que Uber, AirBnb, Netflix e Spotfy fizeram com indústrias até então consolidadas. Mas o que me chamou a atenção foi a quantidade de pessoas contra AdBlocks, e muitos deles influenciadores de novos modelos de negócios digitais.

Nilay Patel, co-founder do The Verge, fez jus à Casey Johnston no The Awl, deixando claro que anúncios não podem morrer pois é a única oportunidade de remuneração de pequenas empresas:

The Awl’s publisher noted that “seventy-five to eighty-five percent” of the site’s ads could be blocked.What happens to a small company when you take away 75 to 85 percent of its revenue opportunities in the name of user experience? (Source: The Verge)

Marissa Mayer, CEO do Yahoo, disse que a internet está perdendo a sua riqueza de conteúdo sem os anúncios.

“I really believe that commercials and ads make content better,” she said. “The experience on the Web [without ads] becomes a lot less rich in my experience. I personally think it is a mistake.” (Source: The Wall Street Journal)

E, não necessariamente falando sobre AdBlocks, mas sobre a evolução do FB Messenger, Andrew Bosworth, Facebook’s head of ads and Pages disse:

That experience should include ads, because life includes ads. So to not have ads would make it less lifelike. (Source: CNN Money)

O Uber está quebrando uma indústria do final do século XIX, ela é mais antiga que o próprio Alan Turing, pioneiro da ciência da computação. Entretanto, o número de manifestações contra Uber por parte desses influenciadores foi quase nulo. Por quê?

Nossa capacidade de montar e pivotar modelos de negócio está acelerando, conseguimos testar produtos e serviços de maneira mais ágil, pessoas estão abertas à novas categorias, que moldam novas indústrias. Acredito que estamos entrando em uma segunda onda de modelos de negócios digitais, onde a internet estará engolindo a própria internet.

Minhas visão nessa discussão sobre AdBlocks não é o ponto do artigo, mas é um fato que o modelo de banner — que tem a idade do fundador do Snapchat — vai ter que mudar e se adaptar. O interessante é pensar que, os players retardando a inovação, também são influenciadores.
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IBRAHIM TEVE UM FILHO — mas a história de como um novo fenômeno engoliu todo mundo, ainda não consigo inventar.


betobina

(*) Beto Bina é planejador e Associate Director of Social na R/GA em Nova York.